domingo, 9 de dezembro de 2012

Capítulo III - A causa primeira

Ele tem alguns anos de trabalho firme em uma empresa bancária. Tem a confiança de todos os funcionários. Tem segurança, tem jogo de cintura. Além de anos de trabalho, também havia estudado economia em Milão e auxiliado em várias transações bancárias em Roma. É um homem de negócios. Tem postura. Nunca errou em nenhum de seus palpites, nunca deixou as coisas saírem do controle em seu setor. Era a galinha de ovos de ouro, da Agência Bancária Harriet. Ele é Buddy Wilson. O nome mais admirado em toda Newport. Todo e qualquer empresário que deseje sucesso em seus negócios, tem por obrigação, procurar Buddy.Todo fim de tarde, Buddy saia da Agência, ia a um restaurante, como de costume, jantar, para depois ir à sua casa. Ele não cozinhava. Era cliente assíduo dos restaurantes e bares de Newport. Na verdade, evitava o máximo que podia, ir até sua casa. Às vezes, passava as noites andando por cada rua da cidade, colocando os negócios em linha tênue, controlando tudo, mesmo não estando em período de trabalho. Ele é focado demais no que faz. Sua família, pai e mãe somente, não tem irmãos, moram em Nápoles. Buddy sempre foi afastado da família. Quando mudou-se para Newport, a intenção principal era a distância da cidade italiana dos pais. É um homem que está bem sozinho. Não porque não encontrava mulheres que o satisfaziam, mas por escolha. Ele não queria dividir nada seu, com ninguém. Nem mesmo sentimentos. Por muitos, ele era tido como egocêntrico demais. Mas essa definição passa longe do que Buddy é. Ele se envolve em seus negócios como se fossem seus filhos. Há uma troca de sentimentos constante em cada negociação que ocorre. Ele é seguro. Mora sozinho desde quando chegou ao país e mantém tudo sob controle.Havia dentro de Buddy, algo que ele temia. Algo que ele evitava. Algo do que ele corria. Corria todas as vezes que os caminhos o levavam até aquilo. Havia algo que amedrontava Buddy, mas não era pouco. Ele conhecia todas as pessoas da cidade, desde as mais importantes até as menos relevantes. Mas não considerava que tinha amigos. Não contava nada de seus negócios, de sua vida, de seu passado, de sua família, à ninguém. Era um túmulo ambulante em ação.Naquele dia, Buddy estava assustado. Tinha terminado seu dia de trabalho e não pediu a seu motorista que o levasse até a algum restaurante. Pegou seu carro e foi até sua casa. Isso era um alerta mortal de que algo ia muito mal. Buddy nunca ia até sua casa. Em hipótese alguma. Não antes de andar por todas as ruas de Newport, sentir-se entediado e querer entrar pela porta de seu imóvel, apenas esperando as poucas horas que faltavam para retornar para a Agência. Mas naquele dia ele havia ido direto para casa. Era fim de noite. Não havia bebido nada. Não estava em seu estado normal. Qualquer pessoa da convivência de Buddy que o visse naquela situação de tranquilidade constante em seu imóvel, saberia que algo ia mal, aliás, muito mal. Assim que chegou em casa, parou em frente a lareira. Não a acendeu. Ficou lá por algumas horas. Em pé. Imóvel. Quando decidiu sair. Ninguém sabia para onde ele estava indo. Ninguém poderia dizer para onde Buddy estava indo aquela hora da noite, mas ele estava indo. E com certeza, não voltaria enquanto não abafasse aquilo que o estava intrigando.

domingo, 21 de outubro de 2012

Capítulo II - Velhas lembranças

Se passaram alguns anos, desde que Marilyn e Kate se encontraram. Mãe e filha. Ambas estavam distantes. Charlie, o pai de Kate, havia sido assassinado no último natal. Na verdade, Kate sempre teve dúvidas de porquê, a todo natal, algo estranho acontecia em sua família, mas sua mãe sempre procurava portas, para  esconder essa história. Kate era ainda uma criança, quando decidiu ir embora de casa. Marilyn não insistiu para que a filha ficasse e isso a intrigava bastante. Da última vez que se viram, estavam acabadas, destruídas. Marilyn sempre preocupada em passar a imagem de mãe tranquila que sabia o que estava acontecendo e Kate sempre com um ar muito grande, de desconfiança, pois sua mãe estava ótima, mesmo tendo sido recentemente o assassinato de seu pai. Kate decidiu partir. Não pegou muitas coisas naquela noite fria, apenas um pouco menos que o básico. Sua mãe, não insistiu para que ficasse. Na verdade, não fez sequer um pedido, um mísero pedido, para que sua filha não partisse.
O que preocupava Kate nesse momento, era saber se sua mãe estava bem. Mesmo depois de tantos anos, será que ainda se lembrava da existência da filha? Será que ainda se lembrava que seu marido foi assassinado brutalmente em uma noite de natal? Kate precisava de respostas. Mas nunca quis voltar para procurar a mãe. Naquela noite, após se encontrar com Jade, ela sentiu fortemente no fundo de sua alma, uma necessidade absurda de encontrar Marilyn. Precisava abrir aquele envelope, junto àquela que a colocara no mundo. Essa sensação, ficou apenas por alguns segundos. Kate não poderia buscar sua mãe naquele momento. Não naquelas condições. Ela tinha somente uma noite, para resolver tudo que havia acontecido nos dias anteriores e partir de Newport, antes que algo viesse à tona. Ela tinha somente aquele fim de noite, para decidir como seria dali em diante, ela não tinha muito tempo, mas acreditava que tinha. Parou de pensar na mãe e começou a se perguntar, porque as coisas se opuseram tão rapidamente assim em sua vida. No começo tinha preferido ficar sóbria para decidir o que fazer. Mas depois de pensar tanto em sua vida, em sua mãe e na fazenda em que moravam no interior de Arizona, precisava de alguma bebida que a mantivesse acordada durante toda a noite.



sábado, 20 de outubro de 2012

Capítulo I - Ofuscando a sala

Não era certo. Tampouco confirmado. Mas havia em seus pensamentos algo que a levava até o ápice de sua amargura. Já haviam se passado alguns minutos, desde que encheu um copo com uma bebida alcoólica  que lhe fora oferecida. Não havia naquele momento, a mínima ideia de como seria daquele instante em diante. Tinha acabado tão depressa que mal pôde esperar para compreender. A sala ainda permanecia cheia de poeira, copos quebrados pelo chão, cortinas rasgadas sobre o sofá. Os acontecimentos da noite anterior ainda rondavam Kate, que gritava entre um gole e outro de whisky. Até que ela gostaria de ter ligado para alguém naquela noite, mas estava tudo muito escuro, para que ela pudesse ouvir supostas reclamações de quem fosse ouvi-la do outro lado. Estava muito agoniada. Até a alguns segundos atrás, enquanto descrevia sua casa, roeu todas as suas unhas, não sabia o que iria fazer. Ainda estava em dúvida, muito confusa. Sabia que uma hora ou outra a polícia de Newport  iria lhe procurar, mas estava assustada demais para poder pensar em algo. Ainda com medo do que pudesse vir acontecer, deixou o copo de whisky em cima da mesa  da cozinha, não havia terminado tudo ainda, por mais que quisesse, cada gole que tomava, parecia secar suas veias e desacelerar seus batimentos cardíacos, pegou sua bolsa e decidiu sair. Seu carro, optou por não usar. Preferiu ir a pé, não queria alertar seus vizinhos de que estava saindo de casa aquela hora da noite. E foi parar na casa de sua amiga Jade. Esta, já dormia, mas despertou com a chamada de Kate. Assustada, levantou-se e abriu as portas para a amiga. Na verdade Jade e Kate não estavam se falando muito, haviam discutido há duas semanas. Estavam distantes uma da outra. Esses dias, se encontraram no trabalho e nem sequer se cumprimentaram. Apenas abaixaram seus olhares e continuaram seus caminhos. Parecia que não se conheciam mais. Tudo que haviam vivido desde os tempos de colegial, parecia ter se esgotado em apenas uma noite de discussão. Jade ficou bastante surpresa com a visita de sua amiga Kate. Sabia que Kate, era orgulhosa demais, para procurá-la e pedir desculpas. Pensou em não abrir a porta, nos primeiros segundos, mas sentiu que a amiga estava aflita demais, somente pelo tom da voz. Resolveu abrir a porta. Nem bem se cumprimentaram, Kate entrou casa à dentro, foi até a cozinha, fuçou pelo forno de Jade, encontrou um envelope feito de papel. Quando Jade pensou em chegar perto, Kate lhe disse em alto e bom tom: -Afaste-se! Nem mais um passo! Permaneceu quieta. Ainda com o envelope em mãos, pegou uma faca, na segunda gaveta do armário, colocou-a no pescoço de Jade e pacientemente lhe disse:-Você não sabe que estive aqui, tampouco guardou esse envelope para mim todos esses anos. Na verdade nunca nos conhecemos. E se algum dia, atrever-se a citar meu nome, para qualquer pessoa que seja, considere-se morta.
Fez um leve corte no pescoço de Jade e saiu. Não era claro o que havia acontecido ali. Ainda porque o relógio era contra tudo que acabava de se passar. Era tarde demais para Kate estar andando pelas ruas de Newport sozinha. Jade até iria atrás de Kate, procurá-la, afim de saber o que havia acontecido, para que aquelas atitudes lhe cobrissem naquela noite, porém, no fundo, sabia, que não devia de maneira alguma encontrá-la novamente.